
Com as perguntas certas e um comportamento notívago, sentar-se para conversar com Paulo Simões da Silva, mais comumente chamado de “Seu” Paulo, pode ser uma verdadeira aula de filosofia. O natural interesse pelos aspectos incorpóreos da vida contrasta com sua casa desprovida de qualquer suntuosidade supérflua.
Ouvia-se apenas a voz serena do entrevistado e os ocasionais ruídos de seus vizinhos, durante uma tarde de chuva intermitente e o predominante aroma de fumo de corda na sala onde ficava o piano, o discreto sofá de dois lugares, algumas estantes e muitos papéis e jornais.
A manifestação de suas características e mudanças psíquicas começou na infância, quando a subnutrição em época de guerra era quase certa. Após a separação de seus pais, foi internado em um colégio que lhe ofereceu intenso tratamento com injeções de cálcio e de penicilina, devido à alta dosagem de sífilis no sangue.
“Como tudo tem um lado bom e um lado ruim, isso mexeu com a minha psique, me fez desenvolver interiormente uma sensibilidade incomum”, explica. “O fato de ter sonhos, de ver as coisas no mundo astral, ou seja, na quarta dimensão; ter visões, as mais inusitadas possíveis.”
Segundo Paulo, tudo isso o transportou a um grau de despertar mental ao qual pessoas comuns não têm acesso. “Você parte para deslindar essas coisas, vai estudar, pesquisar, procurar pessoas que tenham experiências mais ou menos iguais, correlatas.”
Assim descobriu a chamada escola iniciática, para estudos sobre o ocultismo, aos 27 anos. Quando jovem, começara a praticar ioga e também lia muito sobre o assunto em determinadas revistas, o que aflorou as sensações experienciadas nos seus primeiros anos de vida.
O ocultismo, vale salientar, é uma doutrina que estuda todos os fenômenos que as leis naturais ainda não puderam dar explicação. É conhecido, ainda, por um conjunto de sistemas filosóficos baseados em conhecimentos secretos. A segunda definição determina a razão para Paulo ter evitado explanar sobre quaisquer detalhes do tema.
“Quando eu fui trabalhar na Secretaria da Agricultura – eu trabalhava no almoxarifado -, comecei a comentar esses assuntos com um colega de trabalho”, comenta.
E, por intermédio deste colega, conseguiu entrar em contato com um aluno da Prefiz, a escola na qual passou a ser sócio e estudou por aproximadamente 40 anos.
Se todo esse tempo de dedicação aos estudos de ocultismo foi marcante, a música para Paulo foi quintessencial. Com seus dez anos, foi formada uma banda regional dentro do colégio: “No dia da apresentação deles foi que eu ouvi violino pela primeira vez”, conta. “E aquele som, para mim, era uma coisa que parecia vir do céu”.
A reminiscência sobreviveu latente em sua memória até completar 18 anos, idade em que passou a estudar violino, gerando a paixão pela música clássica.
A maior emoção que Paulo já viveu como músico ocorreu no Teatro da Paz, em Belém do Pará.
“Quando termina a audição, teatro lotado, eu senti uma coisa dentro, uma emoção tão grande que dava vontade de chorar, de gritar.” Ele descreve a cena animado. “Passado este fato, eu pensei: ‘agora eu quero ver onde vou ter uma emoção igual.’”
A emoção equivalente veio anos mais tarde, em uma das últimas viagens da banda, em Maceió, Alagoas. Estavam todos em uma praça, mais especificamente em um “barracão”. No intervalo da primeira parte da apresentação discursou Thereza Collor, até então secretária de cultura em Alagoas.
“Ela estava bem atrás de mim, aí eu senti aquela mesma emoção pelo timbre de voz da Thereza; aquilo me arrepiava.”
Sua explicação para aquela comoção tão grande baseia-se em fatores “transcendentais, anteriores a esta vida”. O som daquela voz, segundo Paulo, pareceu ter mexido com sua criptomnésia, ou seja, sua memória ancestral ou inconsciente, que aflorou a partir de algo que tenha vivido naquele local, em outra encarnação.
Nesta encarnação, Paulo nasceu no dia 21 de setembro de 1936, em Viradouro, São Paulo. Sua mãe, chamada Annamerica Carvalho Brado, trabalhava e criava seis filhos.
“Ela era uma ‘mulher macho’, digamos assim, porque para criar tantos filhos sozinha não é brincadeira”, pondera. “Ela era máscula, era terrível; se o tempo esquentava, ela descia o cacete mesmo.”
De seu pai não tem muitas recordações, devido à separação precoce do casal e também pelo seu trabalho, que o levava a ficar semanas longe de casa.
“Meu pai foi um grande artista, na região onde viveu ele era muito popular, porque ele era um dos melhores pedreiros da região, construiu muitas casas, construiu igrejas”, diz. “E era músico. Tocava todos os instrumentos de banda, mas nunca tocou como profissional, sempre como amador. Morreu tocando.”
Paulo aponta uma observação bem peculiar sobre a profissão e as aptidões de seu pai. Apesar do contato limitado que tivera com João Simões da Silva, ele afirma que prevaleceu a herança física e também mental para ter seguido essa profissão como músico. “Porque as profissões podem ser tidas como hereditárias, principalmente profissões consideradas artísticas”, ressalta. “E o pedreiro é também uma das profissões artísticas.”
Essa hereditariedade profissional é, de fato, completamente genuína. Paulo deu aulas de música, aprendeu a tocar piano sozinho, participou de uma edição de Pânico na Tv e já foi um integrante da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, onde entrou em 1973. Antes disso, tocou um ano em uma ópera rock chamada Jesus Cristo Superstar, cuja experiência havia presenciado um mês atrás, em sonho.
“Eu tinha me visto tocando em um lugar escuro e reconheci algumas pessoas”, conta. “E não é que um mês depois eu fui tocar nessa ópera e o local onde a gente tocava era exatamente como tinha visto no sonho?”
Tocava embaixo do palco e a peça exigia escuridão, principalmente no início. Alguns lances tinham um blecaute. “Como eu tive uma visão dessas, no futuro?”, indaga. “Também foi uma coisa emocionante.”
Junto dessa peça, viajou muito. Ficou dois meses no Rio de Janeiro, tocando todas as noites e estudando o dia inteiro. Casou três vezes. Teve um filho com cada esposa. Nem mesmo aqui seu caráter espiritual deixou de se pronunciar. Carregava consigo uma lista de nomes africanos, hebraicos e gregos, todos com significados, pois sempre prezou a importância do nome diante do futuro de cada um.
“O nome é um mantra. Mantra, no hinduísmo, significa ‘som mágico’, um som que atrai forças criadas pela própria mente humana”, explica. “Essas forças podem ser boas ou ruins.”
Sua mulher, por Paulo descrita como arredia à intelectualidade e totalmente inculta, se recusava a aceitar os nomes da lista. No dia do nascimento de sua filha, foi até em casa buscar algumas roupas. Entrando no banheiro, olhou pela janela e encontrou-se diante de um belo sol nascente, digno de causar arrepios.
De volta ao hospital, passando deitada em uma maca, sua esposa declarou qual seria o nome: Aurélia. Aur, do hebraico, significa luz e élio, do grego, é o mesmo que sol.
“Há uma força natural e inconsciente que atua nas pessoas”, afirma. “Como ela foi levada a escolher esse nome, se era refratária àqueles todos da lista?”
Hoje residindo na Mooca, Paulo é um exemplo interessante a ser interpretado. Investe em igualdade na mente e na saúde física: toca seu violino ocasionalmente com amigos, pratica exercícios respiratórios diários e mantém suas leituras religiosamente, entre alguns goles de cerveja e o olhar fixo em detalhes que poucas pessoas têm dado a devida atenção.