A história e visão modesta de um jovem binacional

Nascido em 1993. Filho de comerciantes. Ex-estudante do conhecido Colégio João XXIII e também do Colégio Primo Tapia durante o ensino fundamental e médio. Atualmente cursa com muito gosto o primeiro semestre de Direito na FMU Liberdade.

Esse legítimo libanês, torcedor fiel do São Paulo e pisciano se chama Rawad Kafrouni (pronuncia-se Rauád). Fala como quem acabou de ter uma aula exaustiva de Direito Civil. Ao puxar a cadeira para conversarmos nota-se uma tranquilidade e simpatia acolhedora. Com seu costumeiro Marlboro entre os dedos, discorreu de maneira simplória sobre suas origens, seus estudos, seus aprazíveis costumes e seus gostos.

Sua cor preferida é o vermelho. Seus pratos favoritos são basicamente toda a culinária libanesa. É o tipo de cara que aprecia sem preconceitos um bom pagode, como Belo, Revelação e o Exaltasamba, mas não dispensa outros estilos musicais, tampouco. Indispensável também é “bater uma pelada” com os amigos, pelada essa que já foi coisa séria: quando criança treinava com regularidade para tentar seguir carreira de jogador de futebol.

Com seu amadurecimento e a discreta pressão do pai, mudou de ideia quanto à profissão. Hoje almeja advogar e prestar cargos para concursos públicos, detalhe que comenta com os olhos brilhando. Mas admite: não faz o tipo “aluno exemplar”.

Apesar de ter nascido em Beino, no Líbano, Rawad veio com seus pais para o Brasil bastante cedo, aos três anos, por isso domina a língua portuguesa com propriedade. Moraram alguns meses em Araraquara e depois em São Paulo, por melhores condições de trabalho. A cada dois anos visita sua cidade natal, para rever os familiares e curtir mais da boa comida e das belas paisagens.

Abertamente dono de opiniões e visões bastante liberais, foi inevitável mencionar a polêmica sobre a legalização da maconha. A seu ver é preciso ao menos retirar a pena dos usuários. “Deveriam punir os grandes por trás disso… E não o consumidor final.”.

Um de seus assuntos preferidos em uma conversa é justamente o menos recomendável de se discutir: religião. Ele e seu pai são ateus, pois não se sentem totalmente preenchidos com as “incertezas e falhas das religiões”. Segundo Rawad, no Brasil um ateu é visto com desconfiança, devido à grande diversidade de religiosos, mas isso não lhe trouxe qualquer discriminação por parte dos conhecidos.

Daqui dez anos vê-se saudável, feliz profissionalmente e, com estes propósitos, diz de forma despretensiosa que é o que lhe basta.

[Perfil produzido em 2011]

Memórias presentes e passadas: Seu Paulo, a música e o ocultismo

Com as perguntas certas e um comportamento notívago, sentar-se para conversar com Paulo Simões da Silva, mais comumente chamado de “Seu” Paulo, pode ser uma verdadeira aula de filosofia. O natural interesse pelos aspectos incorpóreos da vida contrasta com sua casa desprovida de qualquer suntuosidade supérflua.

Ouvia-se apenas a voz serena do entrevistado e os ocasionais ruídos de seus vizinhos, durante uma tarde de chuva intermitente e o predominante aroma de fumo de corda na sala onde ficava o piano, o discreto sofá de dois lugares, algumas estantes e muitos papéis e jornais.

A manifestação de suas características e mudanças psíquicas começou na infância, quando a subnutrição em época de guerra era quase certa. Após a separação de seus pais, foi internado em um colégio que lhe ofereceu intenso tratamento com injeções de cálcio e de penicilina, devido à alta dosagem de sífilis no sangue.

“Como tudo tem um lado bom e um lado ruim, isso mexeu com a minha psique, me fez desenvolver interiormente uma sensibilidade incomum”, explica. “O fato de ter sonhos, de ver as coisas no mundo astral, ou seja, na quarta dimensão; ter visões, as mais inusitadas possíveis.”

Segundo Paulo, tudo isso o transportou a um grau de despertar mental ao qual pessoas comuns não têm acesso. “Você parte para deslindar essas coisas, vai estudar, pesquisar, procurar pessoas que tenham experiências mais ou menos iguais, correlatas.”

Assim descobriu a chamada escola iniciática, para estudos sobre o ocultismo, aos 27 anos. Quando jovem, começara a praticar ioga e também lia muito sobre o assunto em determinadas revistas, o que aflorou as sensações experienciadas nos seus primeiros anos de vida.

O ocultismo, vale salientar, é uma doutrina que estuda todos os fenômenos que as leis naturais ainda não puderam dar explicação. É conhecido, ainda, por um conjunto de sistemas filosóficos baseados em conhecimentos secretos. A segunda definição determina a razão para Paulo ter evitado explanar sobre quaisquer detalhes do tema.

“Quando eu fui trabalhar na Secretaria da Agricultura – eu trabalhava no almoxarifado -, comecei a comentar esses assuntos com um colega de trabalho”, comenta.

E, por intermédio deste colega, conseguiu entrar em contato com um aluno da Prefiz, a escola na qual passou a ser sócio e estudou por aproximadamente 40 anos.

Se todo esse tempo de dedicação aos estudos de ocultismo foi marcante, a música para Paulo foi quintessencial. Com seus dez anos, foi formada uma banda regional dentro do colégio: “No dia da apresentação deles foi que eu ouvi violino pela primeira vez”, conta. “E aquele som, para mim, era uma coisa que parecia vir do céu”.

A reminiscência sobreviveu latente em sua memória até completar 18 anos, idade em que passou a estudar violino, gerando a paixão pela música clássica.

A maior emoção que Paulo já viveu como músico ocorreu no Teatro da Paz, em Belém do Pará.

“Quando termina a audição, teatro lotado, eu senti uma coisa dentro, uma emoção tão grande que dava vontade de chorar, de gritar.” Ele descreve a cena animado. “Passado este fato, eu pensei: ‘agora eu quero ver onde vou ter uma emoção igual.’”

A emoção equivalente veio anos mais tarde, em uma das últimas viagens da banda, em Maceió, Alagoas. Estavam todos em uma praça, mais especificamente em um “barracão”. No intervalo da primeira parte da apresentação discursou Thereza Collor, até então secretária de cultura em Alagoas.

“Ela estava bem atrás de mim, aí eu senti aquela mesma emoção pelo timbre de voz da Thereza; aquilo me arrepiava.”

Sua explicação para aquela comoção tão grande baseia-se em fatores “transcendentais, anteriores a esta vida”. O som daquela voz, segundo Paulo, pareceu ter mexido com sua criptomnésia, ou seja, sua memória ancestral ou inconsciente, que aflorou a partir de algo que tenha vivido naquele local, em outra encarnação.

Nesta encarnação, Paulo nasceu no dia 21 de setembro de 1936, em Viradouro, São Paulo. Sua mãe, chamada Annamerica Carvalho Brado, trabalhava e criava seis filhos.

“Ela era uma ‘mulher macho’, digamos assim, porque para criar tantos filhos sozinha não é brincadeira”, pondera. “Ela era máscula, era terrível; se o tempo esquentava, ela descia o cacete mesmo.”

De seu pai não tem muitas recordações, devido à separação precoce do casal e também pelo seu trabalho, que o levava a ficar semanas longe de casa.

“Meu pai foi um grande artista, na região onde viveu ele era muito popular, porque ele era um dos melhores pedreiros da região, construiu muitas casas, construiu igrejas”, diz. “E era músico. Tocava todos os instrumentos de banda, mas nunca tocou como profissional, sempre como amador. Morreu tocando.”

Paulo aponta uma observação bem peculiar sobre a profissão e as aptidões de seu pai. Apesar do contato limitado que tivera com João Simões da Silva, ele afirma que prevaleceu a herança física e também mental para ter seguido essa profissão como músico. “Porque as profissões podem ser tidas como hereditárias, principalmente profissões consideradas artísticas”, ressalta. “E o pedreiro é também uma das profissões artísticas.”

Essa hereditariedade profissional é, de fato, completamente genuína. Paulo deu aulas de música, aprendeu a tocar piano sozinho, participou de uma edição de Pânico na Tv e já foi um integrante da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, onde entrou em 1973. Antes disso, tocou um ano em uma ópera rock chamada Jesus Cristo Superstar, cuja experiência havia presenciado um mês atrás, em sonho.

“Eu tinha me visto tocando em um lugar escuro e reconheci algumas pessoas”, conta. “E não é que um mês depois eu fui tocar nessa ópera e o local onde a gente tocava era exatamente como tinha visto no sonho?”

Tocava embaixo do palco e a peça exigia escuridão, principalmente no início. Alguns lances tinham um blecaute. “Como eu tive uma visão dessas, no futuro?”, indaga. “Também foi uma coisa emocionante.”

Junto dessa peça, viajou muito. Ficou dois meses no Rio de Janeiro, tocando todas as noites e estudando o dia inteiro. Casou três vezes. Teve um filho com cada esposa. Nem mesmo aqui seu caráter espiritual deixou de se pronunciar. Carregava consigo uma lista de nomes africanos, hebraicos e gregos, todos com significados, pois sempre prezou a importância do nome diante do futuro de cada um.

“O nome é um mantra. Mantra, no hinduísmo, significa ‘som mágico’, um som que atrai forças criadas pela própria mente humana”, explica. “Essas forças podem ser boas ou ruins.”

Sua mulher, por Paulo descrita como arredia à intelectualidade e totalmente inculta, se recusava a aceitar os nomes da lista. No dia do nascimento de sua filha, foi até em casa buscar algumas roupas. Entrando no banheiro, olhou pela janela e encontrou-se diante de um belo sol nascente, digno de causar arrepios.

De volta ao hospital, passando deitada em uma maca, sua esposa declarou qual seria o nome: Aurélia. Aur, do hebraico, significa luz e élio, do grego, é o mesmo que sol.

“Há uma força natural e inconsciente que atua nas pessoas”, afirma. “Como ela foi levada a escolher esse nome, se era refratária àqueles todos da lista?”

Hoje residindo na Mooca, Paulo é um exemplo interessante a ser interpretado. Investe em igualdade na mente e na saúde física: toca seu violino ocasionalmente com amigos, pratica exercícios respiratórios diários e mantém suas leituras religiosamente, entre alguns goles de cerveja e o olhar fixo em detalhes que poucas pessoas têm dado a devida atenção.

Sete dias sem ele

Por Humberto Abdo

A rotina sem computadores tem se tornado cada vez mais improvável. Será que dá para viver (ou sobreviver) sem eles? Durante uma semana interrompi o hábito de navegar por até seis horas diárias e experimentei a realidade completamente off-line.

Sete dias. Cento e sessenta e oito horas. Sem exageros, o plano é corajoso. Todo esse tempo em abstinência virtual, uma perfeita tortura para qualquer estudante de jornalismo.

A partir do primeiro dia, à meia-noite, começa uma rotina absolutamente saudável, porém incomum e um tanto agoniante. Como você se sentiria vivendo sem poder ler notícias, se distrair e conversar com amigos da maneira mais fácil?

“Você vai ficar alienado”, diz Mariana Galdeano, 19, estudante de jornalismo e amiga. Algo me diz que alienado eu estava antes. Os resultados mais óbvios provam isso: passei a comprar jornais todos os dias, além do aumento notável de tempo investido em livros, revistas diversas e muitas sessões de cinema.

A conta do celular não se salva, com tantas mensagens de texto que tenho a compulsão de enviar.

Todos os assíduos usuários de internet com quem conversei admitem que tanto tempo sem acesso soa impossível. Por quê?

Pouco tempo, muito conteúdo

São 325 milhões de sites disponíveis por toda a rede. Para um internauta poder assistir a todos os vídeos que correm por lá, teria de reservar seis anos inteiros.

A numerosa quantidade de informação à disposição dificulta a filtragem do que é relevante para ser consumido. E provoca uma ansiedade pouco proveitosa, onde responder a todos os e-mails e atualizar as redes sociais toma um tempo exponencialmente grande.

“Ao mesmo tempo que me conecta com todo mundo, é viciante demais, é prazeroso, logo eu não quero sair.” Caio Paranhos, 18, afirma ter cadastro em nove sites de relacionamento. “Se eu tenho a oportunidade de estar conectado, estou o tempo todo”, diz.

Tudo isso pode gerar o chamado webaholic, uma verdadeira doença da era digital. O desequilíbrio entre o tempo no computador e fora dele pode, em longo prazo, instaurar o desinteresse por obrigações e prazeres da vida real, segundo pesquisa da Universidade Stanford.

A questão está, muitas vezes, na fuga que a internet proporciona. O indivíduo tem liberdade de ser como sempre quis, sem correr grandes riscos ou se expor demais. E mais que o tempo, o preocupante são esses sintomas comportamentais.

Só há um nome: vício. Podemos combatê-lo com um pouco de autodisciplina e, em casos graves, tratamento psicológico.

É recomendável testar seu limite e notar onde está errando ao sentar-se durante horas com a tecnologia mais pluralizada que temos. Tente desconectar-se por uma semana, talvez. Funciona?

Fãs se despedem de Harry Potter

Por Humberto Abdo

15 de julho de 2011. Cinemas lotados. Nas longas filas jovens e adultos, vestidos com capas pretas ou qualquer camiseta que estampasse Harry Potter, esperavam ansiosamente pela exibição do longa-metragem que encerrou a saga inspirada nos livros da escritora britânica J. K. Rowling, Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2.

As críticas nunca foram tão amenas. A maioria delas positiva. E o público fez com que o filme atingisse um sucesso final difícil de acreditar: terceiro lugar na bilheteria mundial de todos os tempos, atrás apenas de Avatar e Titanic.

Dos quatro fanáticos que entrevistei, cada um tem seu livro preferido – dos sete lançados – e o mesmo com os oito filmes. As opiniões também são bem distintas.

“[Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1] É um filme sem clímax que, apesar de ser grande, deixa de abordar muitos aspectos importantes”, analisa Caio Paranhos, 18. “Já o segundo eu gostei bastante. É claro que tem defeitos, mas me surpreendeu positivamente e me emocionou no final.”

Verônica Petrelli, 22, jornalista que faz parte da equipe do site Oclumência, um dos mais famosos dedicados à série, comenta a ansiedade dos fãs: “O pessoal ficava fazendo contagem regressiva, eufórico para comentar sobre um trailer novo, uma imagem nova”.

Toda essa euforia reflete em crianças, adolescentes e adultos com diversas experiências e lições que passaram ao entrar em contato com o mundo mágico de Harry Potter.

“Sabe aquela fascinação, a ponto de dormir em frente à livraria para esperar o último livro sair?”, indaga Luiza Nunes, 15, fã desde os seis anos. “Eu já dormi. Foi hilário. Eu e mais cinco pessoas que acabei conhecendo na hora, pessoas fantásticas e divertidíssimas.”

Mais uma “viciada” em Harry Potter, Letícia Silva Lima, 16, conta: “Quando tinha uns seis anos, minha irmã me levou para ver [Harry Potter e a] Pedra Filosofal no cinema e eu gostei bastante, até desenhava a cicatriz [do Harry Potter] na testa”.

As recordações são inúmeras e todo admirador da saga tem uma a ressaltar. Mais notável ainda são as morais que essa história de ficção é capaz de depositar na nossa realidade.

“Significa minha infância inteira e me ensinou a respeitar o próximo, a aceitar diferenças, a ajudar quem precisa, sentir compaixão pelos problemas dos outros”, relata Letícia. “Isso eu não tive instrução em nenhum outro lugar.”

E Verônica completa: “Além de me formar como pessoa, me dar vocabulário para escrever meus textos, até crescer profissionalmente por conta do contato com o Oclumência, tem a questão das amizades: eu tenho amigos que não teria conhecido se não tivesse entrado lá por intermédio do Harry Potter”.

J. K. Rowling, na pré-estreia em Londres do derradeiro filme, disse as palavras perfeitas para encerrar com os fãs essa era memorável: “As histórias que mais amamos vivem em nós para sempre”, e completou: “Então, se você voltar a ler um dos livros ou assistir um dos filmes, Hogwarts sempre estará lá para recebê-lo”. Sentiu-se por muitos um aperto na garganta, quem sabe uma lágrima e a sensação de que nunca mais teremos algo tão puro e significativo como Harry Potter.

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